Zoologia

A inteligência das aves, parte 4 – Corvídeos, os cúmulos da inteligência

Seguindo com o tema ‘Inteligência das aves’, enfim é chegada a hora de apresentar duas linhagens desses animais sempre lembradas (e com razão!) quando entra-se nesse assunto: corvídeos e psitacídeos! A família Corvidae é formada pelos corvos, gralhas, gaios e demais parentes menos conhecidos; já os Psittacidae incluem papagaios, periquitos, araras, cacatuas e afins.

À primeira vista, esses dois grupos de aves parecem não ter nada a ver um com o outro… Enquanto corvídeos são animais geralmente associados a climas frios e/ou inóspitos, como regiões polares, montanhosas ou desérticas, e são conhecidos por sua coloração ‘sombria’, psitacídeos sempre nos remetem à exuberância e ao colorido dos trópicos.

Mas cuidado, pois como tudo na Ornitologia (e por que não, na Biologia e nas ciências em geral), nunca faltarão casos que não se enquadram nesse suposto padrão.

 

Além disso, ainda que sem parentesco próximo, as duas famílias tem muito em comum. Ambas apresentam comportamentos sociais complexos, boa parte destes aprendidos durante o longo período de desenvolvimento dos juvenis, antes de tornarem-se independentes.

Essa característica remete aos primatas, incluindo os humanos, sendo muitas vezes tratada como um dos pré-requisitos para nossa inteligência! Uma outra condição comumente ligada a habilidades cognitivas especiais, tamanho grande do cérebro, também se observa nessas famílias, cujos encéfalos são relativamente maiores, em relação ao volume do corpo, do que os de outras aves. Claro que, quando se trata de cérebro, como já discutimos na primeira das colunas sobre este tema, tamanho não é documento!

O melhor exemplo disso é, provavelmente, o corvídeo Aphelocoma californica, conhecido em inglês como Western scrub-jay.

Mesmo com um cérebro comparativamente pequeno, essa foi a primeira espécie de animal (com exceção dos humanos) que descobrimos ter a capacidade de planejar e antecipar o futuro! Todos conhecem a habilidade que certas espécies tem de esconder alimentos para consumir em outro momento – muito associada a roedores como esquilos, mas também apresentada por diversos outros animais, como carnívoros. Mas isso não é nada se comparado ao refinamento dessa estratégia nas scrub-jays!

Essas aves não só são capazes de recordar com extrema precisão a localização de incontáveis pontos nos quais enterraram suas nozes e afins (quase um GPS mental!), como ainda vão bem além na habilidade de prever o que irá ocorrer futuramente…

Western scrub-jay (Aphelocoma californica)

Na década passada, vários estudos demonstraram que aves dessa espécie que alguma vez roubaram alimento escondido por outros indivíduos – o que, por si só, já envolve uma boa dose de aprendizagem – conseguiam presumir que elas mesmas poderiam ser vítimas desse tipo de roubo! Isso foi descoberto pois elas até podiam enterrar algo enquanto estavam sendo observadas por outras aves, mas tão logo se viam sozinhas, desenterravam aquele item e escondiam em outro local. Isto é, os indivíduos atribuíam uma experiência prévia sua como um possível comportamento futuro de OUTRO animal, algo muito complexo em termos de inteligência!

E, pra completar, nada disso ocorria quando essas aves ‘ladras’ enterravam o alimento sem a presença de observadores, e nem com indivíduos que não tinham passado por esse tipo de situação de roubar/ser roubado…

Outras espécies de corvídeos também mostram essas ‘desconfianças’ quando trata-se de armazenar alimento. Chegam a esconder-se da visão dos observadores atrás de rochas ou árvores, ou afastam-se o máximo possível deles antes de enterrar um item (posteriormente desenterrando, se alguém aproxima-se na hora errada!), ou mesmo fingem que esconderam o alimento em algum outro ponto…

Já os ladrões em si também são muito cuidadosos, nunca roubando enquanto o dono do item está por perto. Ou seja, os corvos tem a capacidade de dissimular suas intenções e mentir! E ainda de reconhecer quais indivíduos são confiáveis (aqueles que nunca roubaram dele) e quais não – sejam estes de sua própria espécie ou, como foi comprovado experimentalmente, da NOSSA espécie!

Todas essas semelhanças entre corvídeos, psitacídeos (que abordaremos melhor na próxima coluna) e nós, grandes primatas, não são por acaso. Somos todos animais generalistas que evoluíram ou em regiões extremamente diversas e mutáveis – florestas tropicais, lar de grande parte dos psitacídeos e primatas – ou em áreas com condições severas e onde a oferta de recursos é escassa e imprevisível, como os habitats de muitos corvos.

Mais do que respostas pré-programadas, que os indivíduos já nasçam sabendo, nesses casos o mais útil é uma maior habilidade de aprender com experiências prévias (sejam próprias ou de terceiros) e depois relacioná-las para solucionar novos problemas que surgirem.

Isso nos leva de volta ao tema das duas últimas colunas, o uso de ferramentas. Entre os animais nos quais esse comportamento é realmente aprendido, e portanto um bom indicador de habilidades cognitivas sofisticadas, destaca-se o corvo-da-Nova-Caledônia (Corvus moneduloides). Endêmica de uma ilha na costa australiana, essa espécie foi por muito tempo considerada a única da famíla capaz de utilizar ferramentas em ambiente natural. Agora sabemos que não é bem assim, mas C. moneduloides continua sendo o corvídeo que apresenta essa estratégia de modo mais impressionante!

Um corvo-da-Nova-Caledônia (Corvus moneduloides) iniciando a elaboração de uma ferramenta, a partir de folha de Pandannus sp. (ver texto abaixo)

De maneira similar aos woodpecker finches (Camarhynchus pallidus), mostrados em uma coluna anterior, os corvos-da-Nova-Caledônia começam a empregar ferramentas espontaneamente, desde jovens, indicando que há, sim, um componente inato envolvido nesse comportamento…

No entanto, ao contrário daqueles passarinhos, a utilização de ferramentas pelos corvos é algo muito mais flexível! Embora também usem materiais vegetais para extrair larvas inacessíveis de cavidades na madeira, eles não são limitados a um único tipo de ferramenta.

E apesar de, na natureza, preferirem as bainhas das folhas de uma certa árvore (Pandanus spp.), já foram registrados utilizando penas e mesmo objetos de origem humana, como arames.

Além de fabricar suas próprias ferramentas – ‘afiando’ pontas de gravetos, curvando arames para conseguir uma forma de gancho/anzol (vejam no vídeo abaixo!), etc. –, essas aves são capazes de aplicá-las em situações variadas, como na obtenção de outras ferramentas, ou para mexer em objetos e animais perigosos.

Podem ainda empregar diferentes ferramentas para finalidades distintas, aprender a usar diversas ferramentas em uma sequência específica para conseguir um objetivo, ou construir uma ferramenta totalmente nova quando expostas a um problema diferente!

As técnicas são aprendidas e aperfeiçoadas também através da observação de outros indivíduos, e dessa maneira corvos de cada região da Nova Caledônia acabam tendo sua própria ‘tecnologia’ preferida, passada de pais para filhos… Em outras palavras, uma cultura!

É inevitável a comparação com nossos ancestrais ‘das cavernas’, que aprenderam a elaborar e utilizar uma grande variedade de ferramentas para n ocasiões distintas.

Da mesma forma que eles, esses corvos parecem compreender muito bem como funcionam suas ferramentas, o que sugere capacidades cognitivas provavelmente superiores às de chimpanzés e outros grandes primatas, sendo mais semelhantes às nossas! Mas, e quanto à habilidade de aprender conosco, não só em experimentos de laboratório, mas em vida livre?

Na coluna passada (https://www.aprenda.bio.br/portal/?p=10711), sugeri que o convívio com humanos pode fazer com que corvídeos e outras aves desenvolvam novos comportamentos… Vamos a eles, então! Como dito em uma coluna anterior, certas aves carnívoras aprendem a usar aspectos do ambiente a seu favor, derrubando itens alimentares (incluindo presas vivas!) sobre superfícies duras para que se quebrem. Corvos às vezes fazem isso com mariscos, deixando-os cair sobre rochas para abri-los. Também utilizam esse método para frutos de casca dura, como nozes, castanhas, avelãs e similares…

Em ambiente urbano, as aves rapidamente aprenderam a substituir as áreas rochosas por outras superfícies duras, como telhados… e, o mais interessante: o asfalto!

Pode não parecer muito surpreendente, mas o emprego de superfícies asfaltadas, que em um primeiro momento deve ter sido quase não-intencional, logo deu origem a uma técnica refinadíssima: os corvos passaram a usar automóveis como ferramentas potenciais! Após notar que em vias com tráfego de veículos, as nozes quebravam-se com mais facilidade, os corvos gradualmente devem ter relacionado isso à passagem dos carros…

Claro que tudo ali foi devidamente ‘embelezado’ por uma boa edição de vídeo… Porém, embora alguns (poucos) pesquisadores permaneçam céticos quanto a isso, o jeito com que os corvos muitas vezes deixam esses frutos no asfalto, sem jogá-los, mas colocando-os cuidadosamente e aguardando até que sejam quebrados, indica claramente que não trata-se de algo acidental! Vejam agora em um vídeo sem cortes:

Mais uma vez, conclui-se que as aves estão compreeendendo, pelo menos em linhas gerais, o funcionamento disso tudo. E, se há uma coisa impressionante nas aves dessas famílias, é como sua capacidade de compreensão pode ser muito maior do que imaginávamos! Mesmo a interpretação da nossa linguagem não é tão complicada para elas como poderíamos pensar… Mas deixaremos os exemplos disso para a próxima coluna. Até lá!

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Para quem quiser saber mais:

EMERY, N. J. Cognitive ornithology: the evolution of avian intelligence.Philosophical Transactions of Royal Society, B, v. 361, p. 23-43, 2006. – esta abrangente revisão sobre cognição em aves, com enfoque nas duas famílias mencionadas nesta coluna, demonstra o quanto a inteligência desses animais é similar à dos grandes primatas, e o quanto o estudo do assunto pode nos dizer muito sobre nossas próprias capacidades cognitivas.

JUST how smart are ravens? ScienceBlogs. 2007. Disponível em: http://scienceblogs.com/grrlscientist/2007/04/09/just-how-smart-are-ravens/. Acesso em: 04 abr. 2015. – para quem quiser ainda mais informações sobre experimentos envolvendo comportamentos dissimulados em Corvidae. Divirtam-se!

TOOL use in birds. Map of Life. Disponível em: http://www.mapoflife.org/topics/topic_193_Tool-use-in-birds/. Acesso em: 04 abr. 2015. – já citado em uma coluna passada, este link contém um ótimo resumo sobre emprego de ferramentas por aves, dando ênfase particular ao corvo-da-Nova-Caledônia.

DAVIES, G. H. Bird Brains. PBS The Life of Birds. Disponível em: http://www.pbs.org/lifeofbirds/brain/. Acesso em: 11 abr. 2015. – esta é a página do documentário que mostra os corvos usando o trânsito de veículos como seu ‘quebra-nozes’… Ainda que sem disponibilizar o vídeo em si (vocês podem achá-lo no YouTube), apresenta diversos dados sobre a inteligência das aves.

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